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Garagem Elétrica

Quanto rende um eletroposto no comércio? Conferindo os números

Atualizado em 2026-08-31

Você vai encontrar projeções animadoras em material de operadora. Elas não são mentira — a aritmética costuma estar certa. O problema está nas premissas, e é lá que você precisa olhar antes de assinar qualquer coisa.

O que o setor divulga

Uma projeção comum circula assim: cada cliente carrega 10 kWh por visita, o que representaria até R$ 20 de faturamento por cliente; com 5 recargas por dia, seriam R$ 100 por dia, ou R$ 3.000 por mês de receita bruta.

A conta fecha. Agora vamos às duas premissas embutidas.

Premissa 1: cinco recargas por dia, todos os dias

Isso significa um ponto ocupado várias horas diárias, com fluxo constante de clientes com veículo elétrico e disposição para carregar ali.

Em capital, com ponto bem localizado, é plausível. Em cidade de porte médio, com a frota atual, é otimista para a maioria dos estabelecimentos — especialmente no primeiro ano, antes de o ponto ficar conhecido.

Use o seu número, não o do folheto. Se você acredita em duas recargas por dia, refaça a conta com dois.

Premissa 2: R$ 20 por recarga é receita

Não é. É faturamento bruto. Dele ainda saem:

  • o custo da energia que você comprou da distribuidora
  • a taxa da plataforma de gestão e do meio de pagamento
  • manutenção preventiva e corretiva do equipamento
  • a amortização do investimento inicial

A margem real por kWh costuma ser uma fração do valor cobrado. Em cenários com taxa de plataforma e energia em horário de ponta, ela pode ficar bem apertada.

Faça a sua conta

Margem por kWh    = preço cobrado − custo da energia − taxa da plataforma
Receita mensal    = recargas/dia × kWh por recarga × margem por kWh × 30
Retorno em meses  = investimento total ÷ receita mensal

Se o retorno der mais de 36 meses, o carregador não se paga como negócio de venda de energia. Isso não quer dizer que ele seja ruim — quer dizer que ele precisa se pagar por outro caminho.

O outro lado da conta, que costuma valer mais

Pesquisadores do MIT publicaram na revista Nature um estudo indicando que lojas, restaurantes e hotéis próximos a estações de recarga nos Estados Unidos tiveram aumento de até 3% nas vendas anuais, e que os pontos atraem consumidores de maior renda, impulsionando o movimento inclusive em regiões menos atendidas.

Para a maioria dos comércios brasileiros hoje, é aqui que o dinheiro está: no aumento de fluxo e de ticket médio, não na margem sobre a energia.

Um cliente que fica 90 minutos consumindo enquanto o carro carrega vale muito mais que a margem sobre 10 kWh. E o motorista de elétrico escolhe onde parar com base no mapa de recarga — o carregador vira critério de escolha antes mesmo de ele sair de casa.

O que isso muda na decisão

Se o retorno vem do negócio principal e não da energia, três coisas se invertem:

  1. Cortesia pode ser mais rentável que cobrança. Sem app, sem atrito, sem suporte — e o cliente entra na loja.
  2. AC de baixa potência basta. Você não precisa de DC caro para segurar quem já vai ficar duas horas.
  3. A localização do ponto importa mais que a potência. Visível da rua, sinalizado e cadastrado nos aplicativos.

Um cenário conservador, para comparar

Suponha 2 recargas por dia, 10 kWh cada, margem de R$ 0,40 por kWh:

  • Receita mensal com energia: 2 × 10 × 0,40 × 30 = R$ 240
  • Investimento de R$ 15.000 → retorno de 62 meses só pela energia

Agora suponha que o carregador traga 15 clientes novos por mês, com ticket médio de R$ 80:

  • Receita adicional no negócio principal: R$ 1.200/mês
  • Retorno considerando os dois: cerca de 10 meses

A diferença entre os dois cenários não está no equipamento. Está em qual pergunta você fez.

Como decidir sem se enganar

  1. Estime o número real de recargas por dia no seu local, sendo conservador.
  2. Calcule a margem sobre a energia. Se for pequena, aceite que essa não é a receita principal.
  3. Estime o ganho no negócio principal: quantos clientes novos por mês justificariam o investimento?
  4. Se a resposta do item 3 for plausível, o projeto se sustenta mesmo com pouca recarga.
  5. Se não for, adie. Não há pressa — a frota está crescendo e o custo do equipamento tende a cair.

Veja os modelos de parceria, inclusive os sem investimento inicial.

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