Garantia e manutenção do carregador: o que exigir
A instalação terminou, o carro carrega, e ninguém fala mais no assunto. Dois anos depois o carregador para — ou pior, o disjuntor começa a desarmar e alguém percebe cheiro de queimado no quadro.
Aí vem a pergunta que deveria ter sido respondida antes: de quem é isso?
Este artigo responde, e diz o que você precisa ter guardado para conseguir cobrar.
O que realmente falha
Wallbox é equipamento simples e costuma durar. Quando aparece problema, quase sempre é uma destas quatro coisas — e repare que três delas não são o equipamento:
Conector e cabo. É a peça que sofre. Encaixe, torção, arraste no chão, sol. Desgaste de conector é o defeito mais comum, e é consumível: em algum momento troca, como pastilha de freio.
Conexões frouxas no quadro. Recarga é carga contínua por horas, e ciclo térmico afrouxa parafuso ao longo do tempo. Conexão frouxa aquece, e aquecimento é o caminho para o incidente. É a falha mais perigosa e a mais invisível.
Dispositivo de proteção. O DR e o disjuntor têm vida útil e podem falhar — inclusive falhar sem avisar, que é o pior modo.
Eletrônica interna. Placa, contator, comunicação. Aqui sim é o equipamento, e normalmente é o caso mais simples de resolver.
As três camadas de responsabilidade
Não existe “a garantia”. Existem três, com prazos e responsáveis diferentes:
| Camada | Quem responde | Referência |
|---|---|---|
| Equipamento | fabricante | garantia contratual, normalmente 1 a 3 anos |
| Serviço de instalação | instalador | CDC, e o que estiver em contrato |
| Obra na edificação | quem executou | Código Civil, art. 618 |
A que quase ninguém conhece é a terceira, e ela é a mais longa.
O que o Código Civil dá: cinco anos
O artigo 618 do Código Civil estabelece que, em empreitada de edifícios ou outras construções consideráveis, quem executa responde por prazo irredutível de cinco anos pela solidez e segurança do trabalho.
O entendimento atual dos tribunais é que “solidez e segurança” não se limita a estrutura: alcança a funcionalidade e a habitabilidade da obra, o que inclui instalações elétricas.
Há um detalhe processual que derruba muita gente: o parágrafo único do mesmo artigo diz que o dono da obra decai do direito se não propuser a ação nos 180 dias seguintes ao aparecimento do defeito. Ou seja, o prazo de garantia é de cinco anos, mas quando o problema aparece o relógio de seis meses começa a correr.
Isso torna essencial registrar por escrito a data em que você notou o problema — e-mail, mensagem, notificação à administradora. Sem essa data, discutir prazo depois vira palavra contra palavra.
O mito dos 90 dias
Muita gente acha que a garantia acaba em 90 dias. Não é isso que o Código de Defesa do Consumidor diz.
O artigo 26 do CDC fixa 90 dias para produto ou serviço durável — mas esse é o prazo para reclamar, e não o prazo de duração da garantia. E o que mais importa: em caso de vício oculto, o prazo só começa a contar quando o defeito fica evidente, não na entrega.
Conexão que afrouxa e aquece depois de dois anos de uso é vício oculto clássico: não havia como você perceber na entrega. O CDC não fixou um limite final para essa responsabilidade, e a jurisprudência costuma usar a vida útil razoável do bem como referência.
Traduzindo: o instalador que disser “sua garantia venceu em 90 dias” está simplificando de um jeito que favorece ele.
Os papéis que você precisa ter
Aqui é onde a exigência de documentação na hora da obra deixa de ser burocracia e vira dinheiro.
Sem estes documentos, acionar qualquer das três camadas é muito mais difícil:
- ART do serviço, com o número e o nome do responsável técnico. Entenda por que ela não é opcional.
- Projeto elétrico do que foi executado, ainda que simples.
- Nota fiscal do serviço e do equipamento, separadas.
- Termo de garantia do fabricante e o manual.
- Relatório de comissionamento — os ensaios feitos na entrega: continuidade de aterramento, isolamento, teste do dispositivo diferencial.
- Fotos do quadro antes de fechar a tampa. Custam nada e valem muito depois.
Guarde tudo digitalizado, em lugar que você vai achar daqui a quatro anos. Em condomínio, isso vai para a pasta da administradora, não para a gaveta do síndico que vai sair na próxima eleição. Veja o que o condomínio precisa arquivar.
A rotina que evita o problema caro
Manutenção de carregador residencial é barata e quase toda visual. O que vale fazer:
Todo mês — teste o botão do DR. O dispositivo diferencial tem um botão de teste. Aperte: ele deve desarmar. Se não desarmar, ele não vai proteger ninguém, e isso precisa de eletricista agora. Leva dez segundos e é a coisa mais útil desta lista.
A cada uso — olhe o conector. Procure marca de escurecimento, pino torto, plástico deformado, cabo com corte ou esmagamento. Escurecimento é sinal de aquecimento, e aquecimento não melhora sozinho.
A cada seis meses — passe a mão na tampa do quadro depois de uma recarga longa. Quente é normal; quente demais para manter a mão não é. E cheiro de plástico aquecido nunca é normal.
A cada um ou dois anos — reaperto de conexões por eletricista. É o serviço que previne a falha mais perigosa da lista.
A seção 7 da NBR 5410 trata de verificação das instalações e distingue duas: a inicial, que é responsabilidade de quem executou a obra, e a periódica, que a norma atribui ao usuário da instalação — ou seja, a você, ou ao condomínio. Não é cortesia do instalador: é obrigação de quem usa. O intervalo adequado ao seu caso deve ser definido pelo profissional, considerando também o manual do fabricante.
Quando houver firmware. Carregador conectado recebe atualização. Ela costuma corrigir exatamente os comportamentos estranhos que você reportaria ao suporte.
O que exigir antes de contratar
Perguntas para fazer na fase de orçamento, quando você ainda tem poder de negociação:
- Qual a garantia do serviço de instalação, por escrito, e o que ela cobre?
- Vocês emitem ART? (Se hesitar, encerre a conversa. Veja as oito perguntas que separam um instalador de um improviso.)
- A entrega inclui relatório de comissionamento com os ensaios?
- Quem atende o chamado de garantia — vocês ou o fabricante? E em quanto tempo?
- Vocês oferecem revisão periódica? A que preço?
- O equipamento tem assistência no Brasil? Marca importada sem representação vira sucata cara quando a placa queima.
A quarta é a que mais gera atrito depois: instalador que joga tudo para o fabricante e fabricante que diz que o problema é a instalação deixa o cliente no meio, sem ninguém.
Se o problema já apareceu
- Registre a data por escrito, hoje. E-mail para o instalador serve, e cria prova.
- Não mexa antes do laudo, se houver sinal de aquecimento. Desligue o disjuntor do circuito e pare de usar.
- Chame quem executou primeiro, com o número da ART em mãos.
- Se a resposta for “acabou a garantia”, verifique se é vício oculto — o prazo pode nem ter começado a correr.
- Em condomínio, comunique formalmente a administradora. O registro protege você e o condomínio.
Isto é orientação geral, não parecer jurídico. Prazos e responsabilidades dependem do contrato assinado, do tipo de obra e das circunstâncias do caso. Se houver dano relevante ou recusa do fornecedor, consulte um advogado antes de perder prazo.
O que é ART e por que exigir · Como escolher o instalador · Passo a passo da instalação
Antes de acionar quem quer que seja, vale identificar o sintoma: disjuntor, DR e recusa de recarga têm causas bem diferentes. O que é cada caso.
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